Ser e Ter

A posse e o culto de objectos de arte ou de design como elementos identitários é algo que parece ser próprio da natureza humana.

Temos o que somos?
Desde sempre que o homem recolhe, colecciona e cultiva objectos, essencialmente pelo exotismo, pela religiosidade e pelo saudosismo que eles contêm e deles emana. Uma prática inicialmente alheada de quaisquer preocupações científicas ou museológicas, muitas vezes movida por rituais bizarros ou secretos, mas que, na maioria dos casos, tem a ver só com a descoberta de uma identificação pessoal com os objectos em causa.
São objectos que, na sua essência, mantêm intactas as premissas de pureza, simplicidade e genuinidade que tão ansiosamente buscamos, de forma infrutífera, nas pessoas com quem nos relacionamos, ao mesmo tempo que, nos antípodas, podem corporizar toda a espécie de complexos, fantasmas e fetiches, que secretamente nos atormentam e que de uma maneira ou de outra nos esforçamos por exorcizar.

Somos o que temos?
No que diz respeito aos objectos artísticos, estes relacionam-se íntima e afectuosamente com o seu proprietário ou conservador, coisa que não parece acontecer com outros tipos de objectos de culto, como relógios, carros, telemóveis – que são cultivados por mera exibição ou ostentação de status. Não quer isto dizer que no culto deste tipo de objectos não se verifique igualmente uma boa dose de afectividade – basta pensar nos aficionados do Citroën 2CV ou da Triumph Thunderbird 1950 para o perceber. Da mesma forma que, no que concerne ao culto de objectos artísticos, se deixe de evidenciar o factor status – também aí ele existe e é cada vez mais patente no mercado oficial de arte.
A ostentação sempre foi uma maneira pouco elegante de tentar fazer vingar o poder que se tem, qualquer que ele seja. Mas nunca como no séc. XXI – o século em que a vaidade vai à feira! – se assistiu a uma tal demonstração de ausência de carácter! E de uma forma tão democratizada! Pela primeira vez, a manifestação ostensiva de status é transversal a todo o espectro das classes sociais, desde a aristocracia ao proletariado. Todos têm acesso, hoje, à exibição de uma caneta Mont Blanc Diplomat, de um fato Armani ou de um relógio Cartier Tank, mesmo que não passem de pechisbeques contrafeitos na distante Ásia! E é triste verificar que o mundo ocidental pretenda, do oriente, somente o pior que ele tem para nos oferecer: a exploração esclavagista das suas populações e o menos espiritual das suas realizações!

Ter para ser
Interessa-nos, todavia, relevar uma outra ordem de objectos: aqueles que são avaliados e valorizados apenas pela relação afectiva que têm com os seus proprietários. Assim também se define a sua cotação – não no mercado, mas num círculo restrito de iniciados, unidos por códigos aparentemente imperceptíveis, mas perfeitamente claros para os que dele fazem parte. São objectos pelos quais se mantém uma relação que ultrapassa a compreensão da maioria das pessoas, mas que faz a delícia de todos quantos a cultivam.
Uma boneca de madeira da Ti Guilhermina, de Vila Flor, ainda não faz parte do acervo de nenhum museu ou galeria, mas quem a possui não se separa dela por nada deste mundo!
Da mesma forma, quem possui uma boneca Venavi (Togo/Ghana) nutre por ela um carinho tão intenso quanto o gémeo africano que a possuiu na origem, ainda que por razões bem diferentes.

Ser para ter
Se haverá objectos cujo carácter único os tornam verdadeiras jóias da coroa e por isso de custo avultado, muitos outros haverá em que não será pelo seu custo que se inviabilizará a sua aquisição. Não é tanto pelo carácter mais ou menos valioso das peças coleccionadas, antes pelo carácter menos ou mais ambicioso do coleccionador que uma colecção satisfaz o seu proprietário. Há quem se contente com um fac-símile de um rascunho de uma obra de Picasso e outros que não descansam enquanto não adquirirem a “Guernica”, ela mesma!

Ser e Ter
Este “ser e ter” compulsivo em permanente dialética permite-nos a assunção de que, no culto de um objecto, cada pessoa tem o privilégio e a oportunidade de revelar só para si uma parcela dos grandes mistérios do mundo. E que, em cada um desses objectos, é possível encontrar muitas das pistas denunciadoras das nossas origens mais remotas, assim como vislumbrar os sinais vitais dos nossos rumos mais pósteros.



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[Texto escrito em 2008 a convite da UpArt-Objectos de Culto.]

1 Comentário»

  Dalila d’ Alte Rodrigues wrote @

Nas representações colectivas dos povos primitivos, os objectos, os seres, os fenómenos podem ser, de um modo estranho, imultaneamente eles próprios e algo diferente. Digamos que recebem e emitem forças, virtudes e qualidades de mistério e magia.
Para o primitivo, o objecto a imagem o som e a acção possuem, muitas vezes, um poder mágico e simbólico, que, curiosamente, adquirem hoje um novo e pertinente significado. A morte e a doença não são uma causa natural, explicada pela ciência, mas pela crença em algo que nos transcende. É interessante verificar que certas intervenções modernas recorrem, por vezes e em última instância, a processos idênticos, sobretudo quando a medicina tradicional esgota o seu poder de cura, facto que a psicologia e a psicanálise
estão em melhores condições de interpretar e compreender.
A magia é uma técnica primitiva para a realização de um desejo. O medo e a angústia são, nos povos primitivos, causados por “poderes invisíveis”, que os obrigam a
protegerem-se. As feitiçarias e as representações fantásticas são concepções étnicas de uma linguagem formal, enraizada numa longa tradição, características de uma mentalidade mítica. Após a redescoberta da arte ritualista e mágica dos povos ditos primitivos, os surrealistas viriam a aprofundar o significado inquietante dessa linguagem simbólica da vida, tão
intensamente subjectiva quanto objectiva, compartilhada pelo grupo ou pela tribo. Ao evidenciar a capacidade de transformação da imaginação delirante, os surrealistas
jogam, frequentemente, com o sentido metafórico do objecto e da imagem, em novos contextos, A pintura de Miró abeira-se do primitivo e da criança e recupera o sentido mágico das cores, das formas e dos objectos. Cada objecto possui uma virtude “mágica”, um conteúdo quase sagrado, quase religioso.
“Cada grão de areia possui uma alma maravilhosa, mas nós já nos esquecemos disso. Para o voltarmos a sentir, é preciso ressuscitar o sentido mágico das coisas: o dos povos primitivos.” ; “A arte popular sempre me emocionou”; ” não há nesta arte artifícios ou truques. Vai directamente ao objectivo”; “O que pinto significa exactamente aquilo que vejo. De um ceifeiro, de um pássaro, da noite, de uma estrela, tento reflectir-lhes a essência, a vida íntima, subjacente, a cor pura,
aquilo que é a sua lírica profunda”. “O surrealismo está com os povos de cor, sempre a seu lado contra todas as formas de imperialismo e de pirataria de brancos; são disso prova os manifestos publicados em Paris contra a guerra de Marrocos, a exposição colonial, etc. Por outro lado, existem as mais profundas afinidades entre o chamado pensamento “primitivo” e o pensamento surrealista, ambos visando trocar a hegemonia do consciente, do quotidiano, pela conquista da emoção reveladora. Estas afinidades foram postas em evidência por um escritor da
Martinica, Jules Monnerot, numa obra recentemente publicada: La Poésie Moderne et le Sacré… (in Breton, André, Entrevistas. Lisboa: Edições Salamandra, 1994, pp. 237/238)
(exerto da minha tese de doutoramento: “A Obra de Eurico Gonçalves, na Perspectia do Surrealismo Português e Iternacional” – Dalila d’ Alte


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