Gainsbourg Revisited

Monsieur Gainsbourg Revisited

REQUIEM POR UM CANALHA

A edição de “Monsieur Gainsbourg Revisited” (2006 Barclay), disco de homenagem ao mais influente músico francês da segunda metade do séc. XX, mereceu, 15 anos depois da sua morte, uma atenção especial por parte de todo o meio musical, tendo a prestigiada revista francesa Les Inrockuptibles lançado um número especial, Hors Série, dedicado exclusivamente ao disco e, por extensão, à figura de Serge Gainsbourg.
Se este destaque não será de estranhar no país onde viveu toda a sua vida (ainda que ele seja descendente directo de judeus russos), já a atenção sentida na Grã-Bretanha, que o ignorou todos estes anos, poderia ser considerada de surpreendente caso se desconhecessem os contornos desta edição. Acontece que o projecto “Monsieur Gainsbourg Revisited” foi precisamente pensado para finalmente consagrar o artista para além do hexágono gaulês.

Galáxia Gainsbarre
Depois de todas as operações de penetração no mercado anglo-americano terem falhado no passado, facto que – chegou-se à conclusão – só poderia ter a ver com a rejeição visceral à língua francesa por parte dos britânicos, todo o processo foi revisto. Com o patrocínio de alguns dos mais influentes agentes franceses da indústria musical, o projecto cresceu em ambição e foi levado a cabo sem olhar a meios. Sacrificou-se a língua original – o que, na pátria do chauvinismo, foi pior que engolir um milhão de sapos – e convocaram-se alguns dos mais influentes músicos da actualidade para dar corpo, som e voz (em inglês) a esta revisitação. Franz Ferdinand, Portishead, Cat Power, Michael Stipe, Tricky, Placebo e The Kills são só alguns dos astros que fazem parte deste firmamento. A galáxia Gainsbarre merece todo este esforço e, por mim, merecia mais ainda. De lamentar os erros de casting, que poderiam ter colocado em causa a excelência do resultado final, mas que acabaram por não ter um peso relevante no total da empreitada.

Processo Complexo
Chegados aqui, convirá explicar um pouco como todo o processo se desenrolou. A equipa de produção escolheu, entre o repertório de Gainsbourg, um conjunto de temas que se adaptariam melhor ao mercado internacional e a este início de milénio. As bandas seleccionadas, umas por se identificarem com o universo do autor e outras tão só por estarem a viver um momento de maior hype, escolheram, por sua vez, entre aqueles temas, os que mais se adequariam ao seu estilo particular. Convidou-se para traduzir as letras alguém que tivesse alguma facilidade em perceber as idiossincrasias da escrita de Gainsbourg – no caso, Boris Bergman, um escritor, tradutor e letrista russo que vive entre França e Inglaterra. Por fim, entrou-se na fase das gravações, tendo cada artista assumido a produção e a escolha do estúdio.

A Lógica das Versões
Fazer uma versão de um tema de qualquer autor consagrado é algo sempre complicado, mas quando a obra em questão é a de Gainsbourg, a tarefa multiplica a dificuldade. Isto, porque deve haver poucos compositores com uma marca tão vincadamente particular na sua escrita como o autor de “Melody Nelson”. Esta é feita de complexos jogos de palavras, de ambiguidades permanentes, de dissimulados segundos sentidos e de uma enorme riqueza nas orquestrações. Ele usava as palavras como de notas de música se tratasse e tratava a música como se um grupo de palavras usasse.
Independentemente do grau de dificuldade de partida, a arte da versão tem sempre muito que se lhe diga. Se se gosta muito de uma canção, para quê refazê-la? Qual é a lógica que deve estar subjacente a um disco de versões? A da conversão ou a da diversão? Deve o artista trazer a canção para o seu universo pessoal ou antes levar-se a si para o universo do autor? É melhor uma versão em que se respeita o formato original ou aquela em que tudo se desconstrói? Se um tema foi composto como uma rumba, é legítimo transformá-lo num samba?
Estas são só algumas das questões que tal exercício implica. Muitas outras haveria para colocar. A uma constatação, pelo menos, podemos chegar: para ser bem sucedida, a versão tem que se bastar a si mesma, como se ela própria fosse um original, sem uma dívida directa ao tema que lhe está na base.

Resultados Desiguais
Foi na presença deste último princípio, que abordei a análise do disco e posso desde já adiantar que na maioria dos casos ele é bem sucedido, o que torna logo a sua audição num prazer extra. Grande parte dos artistas conseguiu trazer para os nossos dias e para a língua inglesa o essencial do universo de Serge Gainsbourg, sem que se tenha perdido muito pelo caminho. Curiosamente, provém do pior do seu repertório algum do melhor que este disco contém, como é o caso dos temas “Sorry Angel” (Franz Ferdinand & Jane Birkin) e “I’m The Boy” (Marc Almond & Trash Palace). Igualmente com nota bastante positiva estão as versões de Faultline, Brian Molko & Françoise Hardy (Requiem pour Un Con); dos Placebo (Ballade de Melody Nelson), confirmando a aptidão natural de Molko para interpretar Gainsbourg; de Carla Bruni (Ces Petits Riens), apesar de, paradoxalmente, parecer aqui um pouco deslocada; e, sobretudo, de Marianne Faithfull & Sly and Robbie (Lola Rastaquouere), a minha favorita do disco.
Com nota média: Jarvis Cocker & Kid Loco (Je Suis Venu Te Dire que Je M’en Vais) – com um original deste calibre, não seria fácil fazer melhor, sobretudo ao nível da palavra; Michael Stipe (L’Hôtel Particulier) – que falta de alma é esta, tão invulgar no vocalista dos REM?; Gonzales, Feist & Dani (Comme Un Boomerang) – com tanta composição magistral, quem se foi lembrar deste tema?!; e The Kills (La Chanson de Slogan) – como os anteriores, nada mal, mas sem rasgos de maior.
Finalmente, com nota baixa: Portishead (un Jour Comme Un Autre-Anna), pelo ruir das expectativas criadas; Tricky (Goodbye Emmanuelle) – definitivamente, o som de Bristol já viveu melhores dias; e The Rakes (Le Poinçonneur des Lilas), a evitar.
A reinterpretação de Cat Power & Karen Elson do clássico “Je T’Aime, Moi Non Plus” merece uma atenção especial. A melhor versão que conheço deste hit de todos os tempos é a de Sven Vath com Miss Kittin – o paradigma da versão perfeita. Por sua vez, “I Love You (Me Either)”, a começar pelo título – não deveria ser antes “Me Neither”?! –, desilude absolutamente. Mas só na escuta inicial. Depois de 5 ou 6 audições, torna-se estranhamente numa outra coisa, ganha vida própria e conquista-nos totalmente. Só que, para o bem e para o mal, já não é o “Je T’Aime, Moi Non Plus” que todos conhecemos. Tem a curiosidade adicional de ser interpretado por duas mulheres, uma ironia que subverte as conotações exacerbadamente machistas de que o original foi vítima.
De notar que as canções de estética mais descortinadamente homossexual, como é o caso do já citado “Boy Toy” – um dos únicos temas que ganha, sem apelo, na comparação com o original –, talvez porque interpretadas por quem de direito, ganharam aqui uma maior intensidade emocional. Não será por acaso que Serge Gainsbourg, sem nunca ter clarificado as suas tendências sexuais – jogando sempre com uma engenhosa ambiguidade nesse capítulo, como em quase todos os capítulos da sua vida –, se tornou num dos artistas mais cultivados pela classe gay a nível mundial.

Sublimação Cool
Ao revisitarmos, hoje, de seguida, todos os registos sonoros e visuais deixados por Serge Gainsbourg, fica-se com uma impressão algo diferente daquela que nos provocava há 20 ou 30 anos, quando aparecia como uma figura convictamente insolente e admiravelmente viciosa. O homem da mais baixa das decadências, da mais acérrima das provocações e do mais acentuado dos excessos não era, afinal, tão cool como pretendia parecer. Por detrás da confiança que se esforçava por demonstrar e da arrogância tantas vezes criticada, havia uma personalidade frágil, carente e insegura. O refúgio permanente no tabaco, no álcool e noutras substâncias socialmente menos aceitáveis, são só um dos sinais dessa evidência. Gainsbourg era, no fundo, uma pessoa extremamente atormentada, quer pela consciência da sua fealdade, quer pela indefinição da sua sexualidade, sublimando tudo através da arte – uma arte única, ainda hoje inigualável, que merece, cada vez mais, ser revisitada.


NOTAS:
Para os aficionados de versões e do trabalho de Gainsbourg, recomendo, sem reservas, os dois volumes que Mick Harvey (o guitarrista dos Bad Seeds de Nick Cave) dedicou ao compositor francês:
1: Intoxicated Man (1995 Mute)
2: Pink Elephants (1997 Mute)

Quem preferir descobrir a obra do francês através dos seus originais, 4 discos são essenciais:
1: Initials S.G.
(2003 Mercury) [das compilações possíveis, a mais coerente e acessível]
2: Jane Birkin Serge Gainsbourg
(1969 Fontana/Polygram)
3: Histoire de Melody Nelson
(1971 Philips/Mercury)
4: L’ Homme À Tête de Chou
(1976 Philips/Mercury)



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Artigo publicado, sob o nome de José Carlos Soares (testa-de-ferro por motivos contratuais), no número 26, e infelizmente último, da revista Mondo Bizarre – Junho de 2006

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