Arquivo de Literatura

A Palavra Escrita

A Palavra Escrita

Vivo em grande parte do rendimento que o uso da palavra escrita me proporciona, mas confesso que sempre me senti completamente arredado de todas as lógicas que estão associadas aos meios literários e fora de todos os processos editoriais puramente mercantilistas da indústria do livro.

Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxaguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar.
Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso – a palavra foi feita para dizer.

[Graciliano Ramos (1892-1953), romancista, cronista, contista, jornalista brasileiro, numa entrevista concedida em 1948]

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Um Pouco Cedo…

Desde há já algum tempo que as duas únicas pessoas que leio e ouço de forma incondicional no nosso país — pela inteligência, pela argúcia, pela ironia, pela simplicidade, pela coragem, pela simpatia — são o Ricardo Araújo Pereira e o Manuel António Pina.
Este último deixou-nos hoje.
São dele os últimos livros que eu li aos meus filhos e é dele a última crónica que eu li num jornal.
Poder-se-ia dizer que ficamos mais pobres. Neste caso, não. A herança que o Manuel António Pina nos deixou hoje é incomensurável. Sejamos dignos dela, mais que não seja para que não passe a ser ele, em definitivo, o último.

As Entrevistas da Paris Review

Foi recentemente editado um livro que está a preencher deliciosamente todo o meu tempo livre.
Trata-se de uma colecção de 10 entrevistas feitas a outros tantos grandes escritores do séc. XX, realizadas nas décadas de 50 e 60 pela equipa da Paris Review.
Ao longo dos seus 56 anos de existência (o primeiro número tem data da Primavera de 1953), a revolucionária revista norte-americana tornou-se num marco para todos aqueles que, de uma maneira ou de outra, estejam ligados ao meio literário. A grande atracção e maior interesse de cada número residia quase sempre na entrevista feita a um escritor de renome internacional, ao ponto de estes textos terem sido considerados por muito boa gente como trabalhos literários de recorte clássico, por si só.
Completamente absorventes e muitas vezes divertidas, estas entrevistas, feitas por quem está por dentro do universo da arte literária, distinguem-se pelo facto de as perguntas serem muito pouco habituais – incidindo mais no “Como” e menos no “Porquê” usual.
A própria Paris Review já havia lançado no mercado norte-americano, através da editora Picador, uma colecção em 4 volumes com parte das conversas realizadas, mas o interesse particular desta edição é ela ter um filtro e um selo nacionais.
O prestigiado jornalista Carlos Vaz Marques levou a si a tarefa de seleccionar e traduzir os textos originais e ainda prefaciar o livro. A edição, extremamente cuidada, é da responsabilidade da Tinta-da-China e o bom-gosto da capa e das ilustrações devem-se a Vera Tavares.
Eu ainda só li as entrevistas feitas a E.M. Forster, Graham Greene e William Faulkner, mas já me bastam para considerar o livro como um dos lançamentos do ano. Os outros 7 autores entrevistados são Truman Capote, Jorge Luis Borges, Ernest Hemingway, Lawrence Durrell, Boris Pasternak, Saul Bellow e Jack Kerouac.
Absolutamente a não perder!

Desvendamento

No perfil que construímos, no auto-retrato que fazemos, revelamos, sem dar conta, muito mais do que pretendemos e desejamos.