Como O Acaso Comanda As Nossas Vidas

Como_O_Acaso

Título: Como O Acaso Comanda As Nossas Vidas
Título original: Alles Zufall
Autor: Stefan Klein
Editora: ASA, Lua de Papel (2008)

Comentário:
Ao contrário do que o título possa levar a crer, este não é um livro de auto-ajuda – embora me tenha ajudado bastante. Também não é um guia para a felicidade – apesar de eu ter ficado bem mais feliz depois de o ter lido.
Desiludam-se os adeptos desse tipo de literatura, pois aqui não há nenhum “segredo” – tudo o que se lê tem uma base científica. Se procura milagres ou outras manifestações divinas e esotéricas, vai ter de as procurar noutros autores.
Stefan Klein é um físico e filósofo alemão, doutorado em Biofísica Teórica na Universidade de Friburgo. As suas credenciais na escrita, ganhou-as enquanto jornalista de ciência, tendo recebido um importante galardão na área da divulgação científica na Alemanha, e posteriormente diversos outros prémios graças aos seus livros. António Damásio, o conhecido neurocientista português, chegou mesmo a considerar que “Stefan Klein é o mais importante escritor sobre Neurociência da Alemanha”.
Com tal pedigree académico, seria de esperar uma escrita cerrada, muito técnica e de difícil compreensão. Nada disso!
O seu estilo é muito escorreito, envolvente e divertido, sem que isso ponha em causa o rigor de fundamentação do seu discurso.
Se ainda desconhece qual a força invulgarmente poderosa por detrás da criação de todas as coisas; se não perdeu a urgência em entender qual é o misterioso sentido da vida; e, no extremo, se ainda não percebeu, quase 200 anos volvidos após o desembarque de Darwin nas ilhas Galápagos, qual é o segredo da nossa existência; então, fique a saber que para encontrar essas respostas não precisa de despender todas as suas poupanças numa viagem ao Tibete, a Meca, a Jerusalém ou ao Vaticano. Por dezena e meia de euros, na tranquilidade do seu sofá, encontra neste livro tudo aquilo que procura.
“Acaso ou destino? Até que ponto o rumo das nossas vidas obedece a uma ordem?”, interroga-se na badana inicial do livro.
Para alguns como eu, poucos avanços de maior ou revelações dignas dessa qualificação se podem encontrar aqui. Isso porque as ideias que o livro avança e defende, apesar da familiar estranheza que causaram, são-me de uma estranha familiaridade. Da mesma forma que seria familiar para um jovem na Grécia Antiga considerar que “o mundo concreto percebido pelos sentidos é uma pálida reprodução do mundo das ideias”. Ou que nada de estranho haveria num marinheiro português, no período renascentista, considerar que a terra não era um plano, mas sim uma esfera. Ou ainda que um letrado em Direito Canónico, no mesmo séc. XVI, contrariando a teoria criacionista, arriscasse a cabeça ao considerar que era a Terra que girava em torno do Sol e não o inverso.
Confirmada a revelação de que o futuro pode em grande parte já estar contido no passado, sobejam os conhecimentos empíricos suficientes para nos permitir entrar neste milénio num maior e muito melhor estado de desenvolvimento. Faltou foi quase sempre a possibilidade de demonstração e afirmação dessas verdades universais. É essa, precisamente, a maior qualidade deste livro – confirmar pela ciência aquilo que as nossas percepções sempre nos revelaram.
Suportando-se nas mais avançadas teorias da Física, da Biologia e da Neurociência, Stefan Klein explica-nos claramente como tudo flui e acontece de forma “natural” na Natureza por efeito do Acaso. Ao lerem o livro, perceberão que este Acaso de que Klein nos fala não é bem o mesmo do habitual “foi por acaso” que tantas vezes utilizamos. Trata-se, antes, da razão que está na base de todas as evoluções, isto é, a ocorrência ocasional – acidental, se preferirem – de situações novas que nos abrem o leque de escolhas na difícil tarefa de adoptar, em cada momento, a solução que melhor garanta a nossa sobrevivência.
A contribuição de cada um será estar atento ao surgimento de cada uma dessas opções casuais, descobrir-lhe as possibilidades e depois, passo a passo, testar a sua viabilidade e eficácia. Ou, de uma forma mais simples, estar apto a aproveitar as oportunidades que a natureza nos oferece.
O princípio darwiniano da concepção da evolução como um processo auto-comandado não planeado, mas também não aleatório, ganha com este livro uma nova actualidade.

Género:
Ensaio, Divulgação científica

Destinatários:
Para quem tem os neurónios no lugar e a funcionar na perfeição. Também para aqueles que se interessam pela compreensão do que está por detrás da evidência das coisas materiais e cujas formatações ideológicas e religiosas não tenham calcificado ainda.
Os aficcionados de Rhonda Byrne ou de Dan Brown, que teimam em mascarar a sua ignorância com cultos aos deuses e consultas aos oráculos, esses, podem permanecer abrigados na sombra enorme do seu obscurantismo – este livro não é para eles!

Citação:
“Só através do acaso é que algo de novo é introduzido no mundo.”, in Introdução, p.13
“Para se chegar a uma decisão, tem de se separar o importante do supérfluo – e aceitar a eventualidade dos acasos.”, in Parte IV: Estratégias, p. 357



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9 comentários»

  Merícia Passos wrote @

Em primeiro lugar tenho algum “receio” em comentar o assunto em questão porque não li o livro.
António Damásio e Goleman dizem-nos que: se “Sentimos, logo existimos”. Penso que a gestão das nossas emoções têm algo a ver com a teia que vamos construindo e que percorremos diariamente. Essa teia é feita de escolhas, que irão “condicionar” para o bem ou para o mal a nossa existência. Somos livres porque escolhemos; somos felizes, porque escolhemos… escolhemos porque sentimos. A problemática agora é saber gerir os sentimentos e sensações.
Penso que o comentário não estará à altura do pensamento e capacidade intelectual do Tiago, mas não queria deixar de comentar, para o bem e/ou para o mal.
Abraço
m.p.

  Tiago Coen wrote @

Cara Merícia,
Antes de mais, gostaria de saber que acaso foi aquele que a trouxe aqui!…
😉
Se nos encontramos neste espaço, é porque seguimos uma tendência que nos é comum. Buscamos as mesmas coisas, preocupam-nos os mesmos assuntos, lemos os mesmos autores e, eventualmente, frequentamos os mesmos locais, físicos ou virtuais.
Mesmo assim, poderia ter-se dado o caso de estarmos bem perto um do outro e nada acontecer. Algo, porém, ocorreu que fez com que tivesse reparado na existência deste sítio. Um acaso qualquer. Se não estivesse atenta, passar-lhe-ia ao lado. Foi por estar disponível e predisposta para essa possibilidade, que viu a oportunidade de estabelecer o contacto. Na esperança, seguramente, de encontrar algo aqui que lhe seja benéfico e proveitoso. Com receio, como disse, e, por isso, com cautela, arriscou. O que daqui resulta, não sabe ainda. Logo se verá!
Assim poderia acontecer em todos os campos da nossa vida.
A liberdade de que dispomos gera e revela um universo de acasos, mas também um outro de inseguranças. Não se pode ter tudo – há que pagar sempre um preço pelas opções que fazemos (os economistas chamam-lhe Custo de Oportunidade).
Mas já viu o mar de possibilidades que temos à nossa frente, em vez da redução dos dogmas da religião ou das sentenças do oráculo?
A gestão dessas escolhas só a nós compete, seguindo os princípios do que sentimos ser o nosso caminho e a nossa identidade.

  Merícia wrote @

Tenho sempre um prazer imenso em lê-lo. Obrigada!

  Maria Sêco wrote @

Também eu, apesar das tentações, estou convencida de que a única ordem superior existente é a desordem do acaso, mesmo que este siga o desígnio da adaptação e da evolução.
No entanto, mesmo crendo no acaso da existência, dado o estado de evolução a que chegamos os humanos, não nos livramos facilmente da procura de um sentido, senão universal (segura e felizmente, impossível), pelo menos utilitário para as nossas vidas. E é essa, julgo eu, a angustia de estar vivo.

  Luíza wrote @

O título é péssimo.
Não vou discutir o mérito do livro. Não o li.

Mas acho que prefiro o Mark Rowland.

Scifi = Scifilo: A Filosofia Explicada Pelos Filmes de Ficção científica, é fantástico.
O filósofo e o lobo.
Recomendo os dois.
O homem é fantástico.
Um senão: gostar de sci-fi , filmes pipocas, whisky e de lobos solitários.
Surf também está incluído.

  j. wrote @

este devia estar na mesma prateleira do “magnolia”!

  Tiago Coen wrote @

Sem dúvida!

  cristina roque dos santos wrote @

Vou comprar

  Tiago Coen wrote @

Acho que faz muito bem!
😉
Depois diga-me o que achou!


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