Revolver

Beatles-Revolver

Título: Revolver
Autor: Beatles
Editora: Parlaphone/Capitol/EMI (1966)

Comentário:
“Revolver” estará sempre, junto com “Pet Sounds”, dos Beach Boys, no topo da minha lista de melhores álbuns de todos os tempos.
Mais do que “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, que considero pomposo, excessivamente produzido, e sempre sobrevalorizado na sua avaliação, “Revolver” é o disco que melhor materializa o apogeu de criatividade (1965-68) da banda mais importante da história da música pop-rock.
Para além da excelência das canções que o compõem, todas elas sublimes, o álbum assumiu uma relevância histórica ímpar por ter sido aquele que desencadeou em larga escala a onda psicadélica dos anos 60 e ter lançado as sementes para o rock progressivo que viria a marcar toda a década seguinte.
Com “Revolver”, os Beatles investem pela primeira vez na exploração das potencialidades que o estúdio pode oferecer. Também nesta área, na Inglaterra e nos Estados Unidos, vivia-se uma revolução e os 4 de Liverpol souberam aproveitá-la como ninguém.
Por esta altura, Bob Dylan tinha já lançado “Highway 61 Revisited” e “Blonde On Blonde” elevando as fasquias da criatividade e da inovação a um nível inimaginável apenas dois anos antes. Também os Rolling Stones entravam na corrida com “Aftermath”, o primeiro álbum integralmente composto pela dupla Jagger-Richards, e os Byrds contribuíam com “Fifth Dimension” para o concurso, mas é o feito dos Beach Boys com “Pet Sounds” que representa para Lennon e McCartney o desafio mais difícil de ultrapassar.
A rivalidade entre as duas bandas sempre esteve ao rubro e funcionava como detonador para o talento de cada um dos compositores de serviço. Brian Wilson, o génio por detrás dos Beach Boys, levava essa disputa tão a sério, que acabou num asilo psiquiátrico depois de ter considerado mal sucedida, com o mítico “Smile”, a tarefa de suplantar o brilhantismo de “Revolver”. Só em anos mais recentes, Paul McCartney veio a público reconhecer que sempre considerou “Pet Sounds” o mais magistral álbum alguma vez composto.
Os Beatles não queriam perder o estatuto de banda-a-seguir e fecharam-se no estúdio 2 de Abbey Road para gravar o sucessor do já bastante inovador “Rubber Soul”, ainda que muito influenciado por Dylan e os Byrds. Para gravar os 35 minutos do álbum, a banda necessitou de 300 horas de estúdio, algo inédito até à altura. Havia sempre muitas pressões para se gravar rapidamente os discos, poupando custos de estúdio, e saltar de imediato para a estrada em acções de promoção. Fartos dessa forma de actuar e cansados de andar em tours permanentes, os Beatles impuseram a sua vontade e viram-se livres dos condicionalismos de estúdio impostos pela EMI e das pressões da indústria de espectáculos, concentrando-se em absoluto na composição e produção das suas canções. Estas beneficiaram dessa atenção, tornando-se mais densas e elaboradas, com textos mais sérios e profundos, bem distantes das temáticas ligeiras e frívolas dos discos anteriores.
Quer fosse pelo facto de estarem a viver uma grande auto-confiança, a nível pessoal e enquanto músicos, ou simplesmente pelo efeito das drogas que abundantemente consumiam, todos os elementos da banda encontravam-se num elevado estado de graça aquando das gravações do disco. As influências dos Beatles, por esta altura, iam muito para além da música pop. Frequentavam os meios avant-garde das artes plásticas, mergulhavam nas cenas underground de Londres, Nova Iorque e Los Angeles, deixavam-se iluminar pelas culturas orientais e ouviam John Coltrane, Albert Ayler, John Cage e Stockhausen.
As marcas dessas múltiplas vivências estão bem vincadas em “Revolver”. Tema após tema, as surpresas sucedem-se, revelando todo um novo mundo sónico desconhecido até então. Por entre solos duplos de guitarra, alta compressão da bateria, inversão do som dos pratos livres e temas tocados do fim para o princípio e depois passados em fita ao contrário, toda uma plêiade de experimentações e novas tecnologias foram aplicadas na gravação do disco.
“Tomorrow Never Knows” é o exemplo paradigmático dessa ousadia criativa (se nunca experimentou uma trip de ácidos, pode experienciá-lo através da audição deste tema). A letra é baseada no livro “Psychedelic Experience – A Manual Based On The Tibetan Book Of The Dead”, de Timothy Leary, que Lennon, e toda a geração hippie, adoptou como manual para as suas trips de LSD. O ritmo de bateria, extremamente sincopado e repetitivo, junto com o uso de efeitos de loop tape (corte-e-costura em fita-magnética) – técnicas que vieram, anos mais tarde, a ser popularizadas nas bandas kraut-rock alemãs, pioneiras da música electrónica –, envolve-nos de imediato num transe hipnótico alucinado. Quando John Lennon surge a cantar “Turn off your mind, relax, and float down stream”, a voz dele é quase irreconhecível. Tinha sido processada por um ADT system (Automatic double-tracking) que duplicava a imagem da voz, depois de captada através do uso de uma coluna Leslie, usada como monitor para os órgãos Hammond, obtendo assim um efeito circular. Ambos os sistemas foram inventados por engenheiros dos Abbey Road Studios durante as gravações de “Revolver”, para satisfazer os rasgos criativos de Lennon.
Outro dos temas marcantes do álbum é “Love You Too” (se a banda sonora da sua primeira trip imaginária lhe pareceu muito curta, pode aqui prolongá-la com mais 3 minutos de nirvana absoluto). Trata-se da primeira verdadeira incursão dos Fab Four, pela mão de George Harrison, na música de matriz indiana. No tema “Norwegian Wood”, do álbum anterior, Harrison havia já usado uma cítara, mas bem que podia ter sido um banjo ou um bandolim, dado o formato folk da composição. Se ainda havia dúvidas sobre o peso decisivo do guitarrista no seio dos rapazes de Liverpool, elas são totalmente desvanecidas em “Revolver”, onde, pela primeira vez, assina três do total das composições. Para além de “Love You Too”, e da exploração de riffs à Keith Richards por todo o disco, Harrison contribui ainda com um “Taxman” brilhantemente nervoso e um “I Want To Tell You” informalmente hipnótico.
Paul McCartney teve como principal feito não incluir nenhuma das suas baladas xaroposas – confesso que não tenho a mínima pachorra para temas como “Michelle” ou “Yesterday”! Ao invés, deu largas ao seu invulgar e engenhoso recurso de arquitectura e orquestração musical, sempre na busca da canção perfeita. Conseguiu-o na belíssima “Here, There and Everywhere”, na comovente “For No One”, ainda na soulful “Got to Get You into My Life”, mas mais do que tudo na magistral “Eleanor Rigby” (onde usou, como apoio instrumental, de forma inédita, apenas um duplo quarteto de cordas).
O sétimo álbum de estúdio na discografia da banda de Liverpool foi o último em que todos trabalharam em prol do colectivo, vivendo em comunhão no “Submarino Amarelo”. A partir daqui, as relações de Lennon e McCartney degradaram-se irreversivelmente e passou a ser um para cada lado. Porém, tudo o que os Beatles fizeram posteriormente já estava avançado em Revolver. Inclusive, a capa tão badalada de “Sgt. Pepper’s” já obedecia a um princípio artístico enunciado aqui (convite endereçado a um artista plástico para conceber uma obra propositadamente para o efeito). Klaus Voorman, um pintor alemão que conheciam desde 1961, quando residiam em Hamburgo, foi o responsável pela colagem, utilizando desenhos próprios e fotografias de Robert Whitaker.
O álbum marcou toda uma época, mas – ao contrário de “Sgt. Pepper’s” – não contém uma ruga, uma prega, sequer, de envelhecimento, mantendo uma actualidade admirável.

Género:
Rock Psicadélico, Proto-Kraut-Rock, Trip-Pop

Destinatários:
Toda a gente, sem excepção!
E se você é um daqueles que, por teimosia ou mania da contradição, resistiu até agora à magia dos Beatles, deixe de ser imbecil e vá já comprar a discografia toda!

Citação:
Everybody seems to think I’m lazy / I don’t mind, I think they’re crazy / Running everywhere at such a speed / Till they find there’s no need.
John Lennon, in “I’m Only Sleeping”, terceira faixa do disco.



NOTA: Em 09.09.09, foi reeditada toda a discografia dos Beatles, revista e remasterizada. Para saber mais, vá aqui: Pitchfork Overview



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3 comentários»

  Luíza wrote @

Eu comprei a caixa. Mas continuo não “amando” The Beatles. Não me dizem nada.
Se tivesse vivido o momento Beatles, sido adolescente nos 60, talvez tivesse prazer nesse reencontro. Mas hoje acho eles muito datados, apesar de reconhecer a importância deles e não desmerecer a competência musical.
Daqui a vinte anos, acho, pouca gente os escutará.

  Tiago Coen wrote @

Cara Luíza, muito obrigado pelo seu comentário.
Saúdo o facto de alguém comprar uma caixa – que custa quanto? 230€? – com a discografia completa de um artista de que não se gosta!
Aceito nas calmas que ache os Beatles datados. Não concordo nada, mas não posso deixar de aceitar – é a sua opinião. Ela pode facilmente ser contrariada pela evidente influência directa que a banda de Liverpool revela em múltiplos casos de enorme sucesso de outros grupos bem recentes, ou ainda no interesse crescente revelado pela miudagem dos nossos dias nos discos dos 4 Fab.
Eu, que fui sempre um crítico acérrimo da atitude saudosista tipo “amigos de Alex”, e me mantive, o mais possível, atento às novas tendências da pop, não posso deixar de constatar e sublinhar a enorme actualidade dos Beatles (sobretudo da fase 1965-68).
Por isso, lanço-lhe o desafio: como não lhe serve de nada a referida caixa, e eu ainda tenho de escutar os discos da banda em vinil, não quer ver-se livre do objecto fazendo um desconto acentuado aqui ao seu amigo?
😉


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