Arquivo de Música

Primavera Sound – Porto: Um Festival de Excepção?

Primavera Sound 2013

É verdade que na maioria dos festivais de Verão se costuma celebrar tudo menos a música, no que ela tem de mais autêntico enquanto expressão artística.
Não vou tão longe quanto o meu querido Edwyn Collins (Orange Juice), que proclama em “The Campaign For Real Rock”, o tema que abre o celebrado álbum Gorgeous George:
Yes here they come, both old and young
A contact low or high
The gathering of the tribes descending
Vultures from a caustic sky
The rotting carcase of July
And ugly sun hung out to dry
Your gorgeous hippy dreams are dying
Your frazzled brains are putrifying
Repackaged, sold and sanitized
The devil’s music exorcised
You live, you die, you lie, you lie, you die
Perpetuate the lie
Just to perpetuate the lie
Yes yes yes it’s the summer festival
The truly detestable
Summer Festival
.
O cenário nem sempre é assim tão deprimente, muito embora possa assegurar, pelas minhas inúmeras presenças neste tipo de evento, que poucas vezes a experiência vale totalmente a pena, a menos que se seja ainda adolescente inconsciente, dependente consciente ou estreante deslumbrado.
Desde as actuações a despachar até à uniformização da componente cénica, passando pela praga das longas filas para encher o estômago ou esvaziar a bexiga, tudo sob a dança do pó no ar quente de torrar ou sobre a lama no chão escorregadio de tombar, os festivais de Verão pouco variam entre si, cá dentro ou lá fora.
É verdade que nem todos os concertos são sofríveis, e aconteceu, de forma paradoxal, que os melhores momentos a que já assisti em espectáculos ao vivo tiveram lugar precisamente neste tipo de recinto. O concerto de Neil Young em Vilar de Mouros, em 2001, e o dos Arcade Fire em Paredes de Coura, em 2005, são disso exemplo, entre poucos outros.

O Festival de Paredes de Coura, aproveitando o enquadramento natural favorável, sempre se esforçou por afirmar-se com um registo diferente, mas não conseguiu ainda aquilo que foi patente na edição inaugural do Primavera Sound – Porto, no ano passado, onde tudo pareceu funcionar na perfeição. Pela primeira vez em toda a minha vida, senti um verdadeiro regozijo ao estar num espaço desta natureza. A impressão não foi seguramente só minha, pois o deleite era claramente visível na face de todos os participantes. Tanto, que os próprios artistas fizeram questão de o dizer, com microfone aberto, para que o resto do mundo pudesse ouvir. Não admira, esse sentimento, pois não é todos os dias que se actua num espaço verdejante tão aprazível como o Parque da Cidade do Porto, com o mar ali mesmo ao lado, perante uma plateia que parecia ter vindo dos quatro cantos do mundo, culta e sociável como eu nunca vira.

Este fim-de-semana tem lugar a segunda edição deste festival. Não sei se a magia que ocorreu no ano passado se irá repetir, mas que é imperativo lá ir averiguar, disso não tenho qualquer dúvida.

Todo o programa aqui:
www.optimusprimaverasound.com

Primavera Sound 2013

Em 2012 foi assim:
Primavera Sound – Porto: Resumo Canal 180

BE KIND, BE KIND; BE KIND.

A propósito de hoje, 13 de Novembro, se assinalar o World Kindness Day (Dia Mundial da Bondade), lembrei-me de um plano do filme “Shut Up and Play the Hits” — uma espécie de “The Last Waltz” deste milénio — que regista o último concerto dos absolutamente geniais LCD Soundsystem, no Madison Square Garden, NY.
A cena tem lugar no escritório do manager da banda, onde numa das paredes está exposto um poster em tipografia simples, mas a berrar-nos uma mensagem que nunca mais nos abandona o sub-consciente:
NOTE TO SELF: BE KIND, BE KIND; BE KIND.
De todas as imagens do filme — e o filme é brilhante e arrebatador, com muitos momentos de grande emocionalidade —, esta foi a que mais retive e mantenho presente, até porque é também a imagem que mais guardo do carácter de James Murphy.
Ser gentil, bondoso e generoso é algo que cada um de nós deve levar a sério, sempre, por muito que nos custe, em todos os momentos da nossa vida, com quem quer que seja!

[Print: “Note to Self: Be Kind, Be Kind; Be Kind.”, by Rob Reynolds]

R.I.P. Alex Chilton (1950-2010)

Alex Chilton, um dos meus músicos favoritos, morreu no passado dia 17 de Março, em New Orleans, vítima de ataque cardíaco, deixando para trás uma carreira marcada pela genialidade criativa e por uma atitude sempre arredada dos interesses mais comerciais da indústria musical.
Conhecido sobretudo como líder e vocalista dos Big Star, Chilton é um daqueles artistas que, apesar de ter vivido grande parte da sua vida num quase absoluto anonimato para o grande público, granjeou subterraneamente um culto que ultrapassa em larga escala muitas das estrelas rock mais conhecidas.
A sua carreira musical, algo errante, teve três fases bem distintas. Uma primeira, no final dos anos 60, em Memphis, como vocalista dos Box Tops, um grupo semi-fake de soul e rhythm’n’blues. Apesar de serem todos brancos, ou por causa disso, conseguiram atingir em 1967 o nº1 do top americano com a canção “The Letter”. Mais tarde, no início dos anos 70, ainda em Memphis, mas já no grupo Big Star – talvez a banda americana de maior culto depois dos Velvet Underground – editou três excelentes álbuns: #1 Record (1972), Radio City (1974), ambos fortemente influenciados pelo som dos Beatles e dos Byrds, e Third/Sister Lovers, o mais brilhante e personalizado trabalho de Alex Chilton (editado só em 1978, apesar de concluído em 1975). Enquanto a maioria dos grupos da época andava entretido com teclados triplos, a entreter-nos com tretas de progressões e sinfonismos naquele que pretendiam ser o rock do futuro, os Big Star andavam mais empenhados em inventar de forma simples o som que as melhores bandas de hoje realmente fazem.
Depois da separação dos Big Star, Chilton mudou-se para Nova Iorque e aí deu início a uma carreira a solo que teve tanto de irregular quanto de seminal. Desta fase, enquanto músico, merece atenção especial a edição do álbum Like Flies on Sherbert (1979) e, como produtor, o trabalho realizado nos dois primeiros discos dos Cramps e em vários dos Panther Burns de Tav Falco.
Para além destas duas, outras bandas como os R.E.M., Teenage Fanclub, Beck, Replacements, dB’s, Primal Scream, Jon Spencer Blues Explosion, Posies ou Wilco reconhecem abertamente a influência do trabalho do compositor, multi-instrumentista e produtor e prestam-lhe hoje o tributo devido.

Playlist (YouTube) de alguns dos melhores temas de Alex Chilton, para escutar sempre:
1: September Gurls
2: Thank You Friends
3: Ballad of El Goodo
4: Thirteen
5: Kangaroo
6: Holocaust
7: Take It Off

Para um conhecimento mais aprofundado da importância de Alex Chilton, recomendo a leitura de:
The Life and Music of Alex Chilton
[artigo de Joe Tangari, publicado no site Pitchfork, em 22/Março/2010]

Génios e Motores, Vénias e Labores

O mundo só espera por aqueles que o fazem girar.

António Sérgio (1950-2009)

Dou-me muito bem com a Morte. Sinto só a dor que causa quando a sombra que a segue apaga alguém que me ilumina.
António Sérgio, o último dos lobos resistentes, foi durante muito tempo o meu farol da margem.
Se agora não ficamos às escuras, é porque teve, ele, outro mérito enorme: o de acender, no seu percurso, milhares de novas outras luzes!

[Notícia do Público, 02.Nov.2009]
[Texto de Miguel Esteves Cardoso, 17.Set.2007]

Visão

Visionário é aquele que consegue ver bem longe, sem perder de vista o que está à frente dos olhos.