Arquivo de Literatura

A Palavra Escrita

A Palavra Escrita

Vivo em grande parte do rendimento que o uso da palavra escrita me proporciona, mas confesso que sempre me senti completamente arredado de todas as lógicas que estão associadas aos meios literários e fora de todos os processos editoriais puramente mercantilistas da indústria do livro.

Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxaguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar.
Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso – a palavra foi feita para dizer.

[Graciliano Ramos (1892-1953), romancista, cronista, contista, jornalista brasileiro, numa entrevista concedida em 1948]

Um Pouco Cedo…

Desde há já algum tempo que as duas únicas pessoas que leio e ouço de forma incondicional no nosso país — pela inteligência, pela argúcia, pela ironia, pela simplicidade, pela coragem, pela simpatia — são o Ricardo Araújo Pereira e o Manuel António Pina.
Este último deixou-nos hoje.
São dele os últimos livros que eu li aos meus filhos e é dele a última crónica que eu li num jornal.
Poder-se-ia dizer que ficamos mais pobres. Neste caso, não. A herança que o Manuel António Pina nos deixou hoje é incomensurável. Sejamos dignos dela, mais que não seja para que não passe a ser ele, em definitivo, o último.

Um Livro, Uma Causa… de Vida

A minha primeira acção na Mediterrakeo é uma boa acção. Trata-se da campanha de relançamento do livro “Percursos de Vida”, de José António Salcedo, que é um bom amigo, um cientista e empresário português de reconhecido mérito, nacional e internacional, mas acima de tudo uma pessoa com uma generosidade sem limites.

Este livro já devia estar esgotado faz agora 5 anos, só que há coisas neste país que nem o diabo entende! Particularmente na área da cultura — onde se esperaria algum cuidado no tratamento das obras publicadas — os comportamentos dos seus diversos agentes deixam muito a desejar. A edição de “Percursos de Vida” é disso um bom (mau) exemplo.

Conheci o António José Salcedo, há cerca de um ano, por acaso, no facebook — sinal dos tempos que vivemos.
Cedo me despertou nele a visão lúcida do real, o particular bom senso, a apurada sensibilidade artística, a participação activa na sociedade civil e o cuidado, diria académico, na comunicação com os outros. Tudo avaliações que evidenciam estar-se perante uma pessoa muito culta e de mente aberta, para além de extremamente humana e generosa. Daquelas que eu aprecio. Hoje, por isso tudo, somos amigos para além do espaço virtual.
Sem que ele tivesse feito qualquer alarde do facto, descobri que havia publicado um livro com fotografias e textos próprios, uns tempos antes. Vindo de quem vinha, fiquei curioso e procurei o livro. Nenhuma das minhas expectativas ficou gorada.
José António Salcedo, em tudo na vida, prima pela excelência e aqui não fez por menos: decidiu avançar para uma edição de luxo, assumindo todos os custos da obra. Recorreu ao saber dos artistas plásticos Susana Landolt Alves e Armando Alves para o design e as artes finais, à qualidade da Norprint para a impressão, e entregou a edição à Campo das Letras. Resultou daí um belíssimo álbum, tanto a nível estético como de conteúdo — fotografias e textos —, a fazer inveja à maioria das edições que se fazem em Portugal.
Aconteceu que, logo a seguir, a Campo das Letras entrou em colapso financeiro e a edição ficou anos ao abandono, fechada num armazém. Recentemente, o autor conseguiu recuperar os livros (cerca de 900 ex.) com a intenção de os colocar finalmente no mercado, uma vez que sempre deteve os direitos sobre a obra.
Confirmando ser a pessoa materialmente desinteressada que eu pressentira, decidiu vendê-los a um preço reduzido, doando todo o montante que vier a receber a uma instituição social de âmbito nacional, a A.A.P.C. (Associação Apoio a Pessoas com Cancro), com sede na Senhora da Hora, Matosinhos, precisamente a freguesia onde nasceu.

Num almoço que tivemos, entretanto, o assunto veio à baila e eu propus-lhe ajudá-lo na promoção deste relançamento. Conversei com o José Carlos Soares — na altura a transformar a Mediterrakeo num colectivo — e juntos avançámos para a empreitada.
Começámos por criar uma página na web com toda a informação sobre o livro e agora estamos a dar início à distribuição da obra.
O nosso intuito é criar um movimento à volta deste relançamento, utilizando todos os meios e recursos de que dispomos (newsletters, websites, blogs, redes sociais, etc.) e levar as pessoas a conhecerem a obra e a causa associada.
Decidimos fazê-lo por venda directa, com envio à cobrança — obtendo assim um maior montante para a A.A.P.C. —, mas se houver alguma entidade interessada em comercializá-lo, poderão encomendá-lo também.

Para saberem tudo sobre o livro e concretizarem a encomenda, visitem o website que construímos:
percursosdevida.wordpress.com






Causas e Cursos, Milagres e Percursos

«A vida é um milagre. Possivelmente, será até o único milagre.»

José António Salcedo, in “Percursos de Vida”, E agora… como vai ser o futuro?

As Entrevistas da Paris Review

Foi recentemente editado um livro que está a preencher deliciosamente todo o meu tempo livre.
Trata-se de uma colecção de 10 entrevistas feitas a outros tantos grandes escritores do séc. XX, realizadas nas décadas de 50 e 60 pela equipa da Paris Review.
Ao longo dos seus 56 anos de existência (o primeiro número tem data da Primavera de 1953), a revolucionária revista norte-americana tornou-se num marco para todos aqueles que, de uma maneira ou de outra, estejam ligados ao meio literário. A grande atracção e maior interesse de cada número residia quase sempre na entrevista feita a um escritor de renome internacional, ao ponto de estes textos terem sido considerados por muito boa gente como trabalhos literários de recorte clássico, por si só.
Completamente absorventes e muitas vezes divertidas, estas entrevistas, feitas por quem está por dentro do universo da arte literária, distinguem-se pelo facto de as perguntas serem muito pouco habituais – incidindo mais no “Como” e menos no “Porquê” usual.
A própria Paris Review já havia lançado no mercado norte-americano, através da editora Picador, uma colecção em 4 volumes com parte das conversas realizadas, mas o interesse particular desta edição é ela ter um filtro e um selo nacionais.
O prestigiado jornalista Carlos Vaz Marques levou a si a tarefa de seleccionar e traduzir os textos originais e ainda prefaciar o livro. A edição, extremamente cuidada, é da responsabilidade da Tinta-da-China e o bom-gosto da capa e das ilustrações devem-se a Vera Tavares.
Eu ainda só li as entrevistas feitas a E.M. Forster, Graham Greene e William Faulkner, mas já me bastam para considerar o livro como um dos lançamentos do ano. Os outros 7 autores entrevistados são Truman Capote, Jorge Luis Borges, Ernest Hemingway, Lawrence Durrell, Boris Pasternak, Saul Bellow e Jack Kerouac.
Absolutamente a não perder!

Desvendamento

No perfil que construímos, no auto-retrato que fazemos, revelamos, sem dar conta, muito mais do que pretendemos e desejamos.