Violências Domesticadas

Pussycat

ANEDOTAS DO FORO POPULAR
REESCRITAS COM PROPÓSITO
#001

Não havia como deixar prolongar aquela situação de permanente violência a que se sujeitava no espaço doméstico. Mais do que a dor física, custava-lhe aguentar a humilhação de enfrentar os olhares da vizinhança cada vez que tinha de sair à rua. Ainda assim, decidiu não apresentar queixa na polícia e consultar antes um psicólogo.
— Mas isso é muito simples de resolver — disse-lhe o médico.
— Como assim?
— Se aquilo que o preocupa são os vizinhos, cada vez que a sua mulher o agredir, basta que se ponha a gritar algo do género: “Toma! Toma! E para a próxima ainda será pior!”. Toda a gente vai associar o acto de violência à sua voz e assim achar que é você que lhe está a bater. Garanto-lhe que nunca mais será olhado como um frouxo ou um touro manso.
Gostou tanto da ideia, que logo na primeira oportunidade resolveu colocá-la em prática.
Chegou a casa propositadamente tarde e assim que a mulher lhe deu a primeira pancada, ele berrou: “Toma! Toma! Sua galdéria!”. Ao ouvir aquilo, a mulher batia-lhe cada vez mais e ele gritava mais alto ainda.
O processo continuou em escala, até que a mulher perdeu a paciência e atirou-o pela janela, do 13º andar.
Antes de chegar ao chão, ele ainda gritou:
— E agora eu vou-me embora e nunca mais te quero ver à frente!

[© Reescrita: Tiago Coen]

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