A Palavra Escrita

A Palavra Escrita

Vivo em grande parte do rendimento que o uso da palavra escrita me proporciona, mas confesso que sempre me senti completamente arredado de todas as lógicas que estão associadas aos meios literários e fora de todos os processos editoriais puramente mercantilistas da indústria do livro.

Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxaguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar.
Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso – a palavra foi feita para dizer.

[Graciliano Ramos (1892-1953), romancista, cronista, contista, jornalista brasileiro, numa entrevista concedida em 1948]

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