Arquivo de Novembro, 2009

As Entrevistas da Paris Review

Foi recentemente editado um livro que está a preencher deliciosamente todo o meu tempo livre.
Trata-se de uma colecção de 10 entrevistas feitas a outros tantos grandes escritores do séc. XX, realizadas nas décadas de 50 e 60 pela equipa da Paris Review.
Ao longo dos seus 56 anos de existência (o primeiro número tem data da Primavera de 1953), a revolucionária revista norte-americana tornou-se num marco para todos aqueles que, de uma maneira ou de outra, estejam ligados ao meio literário. A grande atracção e maior interesse de cada número residia quase sempre na entrevista feita a um escritor de renome internacional, ao ponto de estes textos terem sido considerados por muito boa gente como trabalhos literários de recorte clássico, por si só.
Completamente absorventes e muitas vezes divertidas, estas entrevistas, feitas por quem está por dentro do universo da arte literária, distinguem-se pelo facto de as perguntas serem muito pouco habituais – incidindo mais no “Como” e menos no “Porquê” usual.
A própria Paris Review já havia lançado no mercado norte-americano, através da editora Picador, uma colecção em 4 volumes com parte das conversas realizadas, mas o interesse particular desta edição é ela ter um filtro e um selo nacionais.
O prestigiado jornalista Carlos Vaz Marques levou a si a tarefa de seleccionar e traduzir os textos originais e ainda prefaciar o livro. A edição, extremamente cuidada, é da responsabilidade da Tinta-da-China e o bom-gosto da capa e das ilustrações devem-se a Vera Tavares.
Eu ainda só li as entrevistas feitas a E.M. Forster, Graham Greene e William Faulkner, mas já me bastam para considerar o livro como um dos lançamentos do ano. Os outros 7 autores entrevistados são Truman Capote, Jorge Luis Borges, Ernest Hemingway, Lawrence Durrell, Boris Pasternak, Saul Bellow e Jack Kerouac.
Absolutamente a não perder!

Desvendamento

No perfil que construímos, no auto-retrato que fazemos, revelamos, sem dar conta, muito mais do que pretendemos e desejamos.

Sócrates e Portas ou A Hiena e O Abutre

Desenganem-se os que ingenuamente pensam que o namoro de José Sócrates e Paulo Portas é fruto de circunstâncias criadas por acaso.
Há cerca de meio ano, quando ainda não se preparavam as campanhas para a tripla série de eleições, avancei com a convicção de que havia uma aliança estratégica bem urdida entre José Sócrates e Paulo Portas com o fim primeiro de aniquilarem o PPD/PSD e de seguida repartirem a carcaça.
Comprovados mestres nas práticas da necrofagia, ambos viam na frágil condição do adversário uma oportunidade única para usurparem o espaço que em condições normais lhes estaria sempre vedado. A combinação de esforços parecia infalível e os proveitos já eram dados como garantidos. O PS asseguraria a manutenção do poder por longos anos e o CDS poderia assumir-se finalmente como o grande partido da ala conservadora.
O primeiro sufrágio, porém, gelou-lhes o sangue, por uma vez quente, e com isso os movimentos. O segundo acto eleitoral veio confundir mais a estratégia, pois se, à direita, Portas cumpria a sua parte, e se encontrava pronto, de unhas afiadas, para desferir o golpe tão desejado, já Sócrates, com o crescimento inesperado do Bloco de Esquerda, via parcialmente abaladas as suas hipóteses de hegemonia ao ter que dividir a atenção entre um assalto ao centro-direita e a cobertura na ala esquerda.
Ultrapassada esta ameaça depois do desaire do Bloco no terceiro capítulo eleitoral, e confirmado o definhamento do PPD/PSD, a estratégia inicial volta a ganhar forma e só não vê quem não quer o que se adivinha no futuro próximo.
Será coincidência inocente serem precisamente estes os dois únicos líderes partidários a terem sobre eles suspeições de abuso de poder e favorecimento político enquanto detentores de cargos de governação?

António Sérgio (1950-2009)

Dou-me muito bem com a Morte. Sinto só a dor que causa quando a sombra que a segue apaga alguém que me ilumina.
António Sérgio, o último dos lobos resistentes, foi durante muito tempo o meu farol da margem.
Se agora não ficamos às escuras, é porque teve, ele, outro mérito enorme: o de acender, no seu percurso, milhares de novas outras luzes!

[Notícia do Público, 02.Nov.2009]
[Texto de Miguel Esteves Cardoso, 17.Set.2007]

Visão

Visionário é aquele que consegue ver bem longe, sem perder de vista o que está à frente dos olhos.