As Filhas Góticas de Zapatero

Na semana passada uma notícia correu mundo, mas, curiosamente, em Portugal passou quase despercebida.
O motivo de tal buzz teve a ver com a forma “ousada” como as filhas do primeiro-ministro espanhol se apresentaram com os pais no Metropolitan Museum of Art de Nova Iorque durante a recepção oficial oferecida pelo casal Obama aos chefes de estado participantes na 64ª Assembleia Geral da ONU.
Esse facto nada teria de mais, se uma das fotos que habitualmente se tiram pela ocasião não tivesse sido colocada no site oficial do Departamento de Estado americano.
A publicação da foto de imediato levantou uma onda de protestos e levou a que fosse retirada do site ao fim de algumas horas, ao mesmo tempo que era proibida a sua divulgação. Mas era tarde de mais – a imagem já havia corrido mundo e provocado as mais variadas e incompreensíveis reacções.
O casal Zapatero, ao abrigo da lei que salvaguarda a privacidade de menores, sempre proibiu qualquer divulgação pública de imagens das suas filhas (13 e 16 anos). Esse facto pode explicar, em parte, o choque vivido em Espanha por esta apresentação das crianças, desconhecidas até então, mas não justifica, de todo, o teor quase xenófobo da maioria dos comentários.
As reacções de censura só vêm evidenciar que a maioria das pessoas ainda não deu conta que o mundo e os seus modelos de vida mudaram e que esta mudança, no caso oportunamente apadrinhada pelos Obama, veio para ficar.
Que mal vem ao mundo que uma pessoa se apresente vestida desta ou daquela maneira, neste ou naquele lugar, sobretudo quando se trata de uma criança, seja ela filha do cozinheiro da cantina, do reitor da escola ou do ministro da educação? E que diferença faz fazê-lo em estilo gótico ou beto da linha? Não são a Doc Martens e a Tommy Hilfiger apenas marcas, ambas de culto?
É, em tudo, risível esta novela!
Quem não cresceu fantasticamente assombrado pela silhueta de Batman, ou já não terá lido, deliciosamente aterrorizado, um qualquer romance de William Blake, Lord Byron, Friedrich Niezsche ou Edgar Allan Poe? E se tivermos em conta que um dos realizadores mais bem sucedidos e cultivados da actualidade é um gótico convicto – falamos de Tim Burton –, e de que o seu actor fetiche, Johnny Depp, não renega essas mesmas convicções – isto para mencionar só duas ilustres personas dos nossos dias –, não deixa de ser irónica, e mesmo patética, toda esta celeuma. Ainda por cima vindo isto de onde vem – um dos locais mais visitados em todo o mundo é precisamente o Bairro Gótico, em Barcelona, e Gaudi – para muitos, o maior arquitecto espanhol de sempre – o principal revitalizador da arte gótica em Espanha.
Bem, estiveram os pais Zapatero, que lhes concederam o direito de livre afirmação e, ainda melhor, o casal Obama, que não viu nisso qualquer motivo para melindre.

[sobre a cultura gótica]
[ver foto a cores em alta resolução]

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11 comentários»

  teresa aseret wrote @

Primero perdón porque no hablo portugués pero he comprendido tu texto.
Como española y principalmente como persona de esta sociedafd, creo que el problema de esa crítica es el toto culto que tenemos a la imagen y a las apariencias. Es triste que esta sociedad capitalista vallore más las apariencias que el contenido. Hay mayores problemas en esta vida que esa imagen pero los españoles parece que somos tan idiotas que sólo nos preocupan estas cosas.
Obrigada por tu web y tus perfectos comenetarios
teresa

  Tiago Coen wrote @

Obrigado, Teresa, pelas palavras simpáticas!
Infelizmente, parece que esta sociedade não aprende mesmo!…
As questões da imagem, de tudo o que é fútil e supérfluo dominam o interesse das pessoas e dos media. Não só em Espanha, mas por todo o lado.
Ainda por cima, na área das imagens há tanta criação de real interesse a merecer a nossa atenção!…
TC

  Tiago Coen wrote @

Cara Maria Fonseca,
Desculpe só agora lhe responder, mas a elaboração do blog tem merecido a minha atenção quase toda.
É verdade que o ionline dedicou alguma atenção ao assunto – só não sei se no enquadramento e nos termos mais correctos!…
Não veja aqui qualquer censura implícita – sigo o i com muito interesse e atenção.
Espero, eu, como muita gente, que o jornal venha a dar um contributo importante para a renovação e reabilitação da imprensa no nosso país.
TC

  Sergio Castro wrote @

eu vivo em Vigo e assisti com assombro a todo o circo mediático que se montou à volta deste tema, que de outra forma teria sido insignificante, muito principalmente por parte dos quadrantes políticos que ainda não assumiram que a era Aznar já era.
Realmente nem me preocupei em conhecer as fotos. Hoje, acabo de vê-las e fico ainda mais chocado com a estupidez dos comentários que então ouvi, pois nem sequer entendo em que se baseiam.

  Tiago Coen wrote @

Caro Sérgio Castro (Serjão, não é verdade?),
Sou seguidor da sua carreira quase desde o início! Cheguei a assistir a um concerto dos Arte & Ofício no Pavilhão do Académico, no Porto, há muitos anos!…
😉
A formatação do pensamento por parte dos poderes dominantes é cada vez mais uma questão preocupante nas sociedades ditas mais desenvolvidas. Muito por culpa dos próprios cidadãos, que alinham nesse modus operandi sem qualquer espírito crítico. Um pouco à semelhança do que acontece com as vítimas de violência doméstica, que sofrem diariamente e nunca apresentam queixa, também o cidadão comum, por temer represálias de algum tipo ou simplesmente por ignorância, não reage às opressões do dia-a-dia, preferindo assumir uma lamentável atitude passiva.
TC

  Sergio Castro wrote @

Olá Tiago

sem querer abusar do espaço do seu blog, posso dizer-lhe que sempre me atraem estas “causas” e o que refere como formatação do pensamento eu, que sou menos elegante na escrita, denomino como SÍNDROMA DA MANADA que, aqui como aí, se aplica a tantos aspectos da vida quotidiana.
No blog onde sempre que tenho um minuto exponho ideias, já abordei esse assunto alguma vez.

http://iblussom.blogspot.com/2009/10/jornada-de-reflexao.html

Um seu comentário abaixo leva-me ao seguinte pensamento: Poderíamos definir Demokracia, como uma espécie de tapete (cada vez mais) velho, onde todos temos que passar os pés antes de penetrar no grande salão deste paripé social em que vivemos. Quem não o fizer é olhado de soslaio e automaticamente classificado de pecador, acusado de falta de respeito. Em suma de ter, neste caso “ideias sujas” sobre a matriz na que deve desenvolver-se uma democracia, para que tudo corra sobre rodas e a máquina funcione perfeitamente oleada e sem sobressaltos. Mas quem quer que assim seja e a quem aproveita? Perdoem-me o “neologismo” castelhano, mas é a palavra ideal para a ideia: Farsa, encenação, etc

De qualquer forma este seu blog é suficientemente interessante como para colocar um Link no Iblussom.

abrassu

  pop levi wrote @

dira mesmo… Utopiko.

  Tiago Coen wrote @

; )
Como diz Oscar Wilde: “O progresso não é senão a realização das utopias.”
Também Victor Hugo defende que “Não há nada como o sonho para criar o futuro. Utopia hoje, carne e osso amanhã!”.
Celso Furtado, pelo seu lado, inquire: “Que é utopia senão o fruto da percepção de dimensões secretas da realidade, um afloramento de energias contidas que antecipa a ampliação do horizonte de possibilidades abertas ao homem?”

Utopiko e Anarka, porque não?
Demokrata e Burokrata é que não!
; )

  Luíza wrote @

Ligar duas adolescentes mal vestidas a filósofos e a um escritor do porte do Poe, é forçar demais.
Ligar o “me visto do jeito que quero” ao presidente “falo mas não faço nada” é perfeito.
A liberdade individual não está em discussão.
O mau gosto está em discussão. Em qualquer época histórica e qualquer ideologia.
A estética é uma parte da filosofia. Moda também se discute.

  Tiago Coen wrote @

Hehehe!
Muito curioso, o seu comentário, cara Luiza!
Um pouco baralhado nas ideias, mas ainda assim, interessante!
Havia tanto a dizer sobre o que avança!…
Fico-me pelo seu “O mau gosto está em discussão.”, que me suscita logo a seguinte questão: tudo pode ser alvo de discussão – não tem é que ser na praça pública, pois não?
Um pouco mais de pejo, pudor e respeito pela individualidade e privacidade de cada um é o mínimo que se exige, não acha?
Um abraço!
TC


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