Austeridade

Austeridade

Desgastes Privados

Love

ANEDOTAS DO FORO POPULAR
REESCRITAS COM PROPÓSITO
#002

Discutiam o tempo todo.
Desde que casaram, há mais de 11 anos, não havia dia em que ela não arranjasse maneira de implicar com alguma coisa que ele tivesse dito ou feito.
Uma noite, aproveitando o sossego da hora da novela, disse à mulher que ia sair para comprar cigarros. Nunca mais voltou.
Ou melhor, voltou, mas só depois de uns meses largos de ausência.
Abriu a porta de casa, sentou-se no sofá da sala e sacou do maço de cigarros, como se nada se tivesse passado entretanto.
Entra a mulher e começa a barafustar com ele, aos gritos, insultando-o por isto e por aquilo.
Calmamente, sem qualquer reacção, ele começa a apalpar os bolsos e diz:
– Eh, pá! Esqueci-me de comprar fósforos.

[© Reescrita: Tiago Coen]

Verdade vs Mentira

Verdade vs Mentira

Violências Domesticadas

Pussycat

ANEDOTAS DO FORO POPULAR
REESCRITAS COM PROPÓSITO
#001

Não havia como deixar prolongar aquela situação de permanente violência a que se sujeitava no espaço doméstico. Mais do que a dor física, custava-lhe aguentar a humilhação de enfrentar os olhares da vizinhança cada vez que tinha de sair à rua. Ainda assim, decidiu não apresentar queixa na polícia e consultar antes um psicólogo.
— Mas isso é muito simples de resolver — disse-lhe o médico.
— Como assim?
— Se aquilo que o preocupa são os vizinhos, cada vez que a sua mulher o agredir, basta que se ponha a gritar algo do género: “Toma! Toma! E para a próxima ainda será pior!”. Toda a gente vai associar o acto de violência à sua voz e assim achar que é você que lhe está a bater. Garanto-lhe que nunca mais será olhado como um frouxo ou um touro manso.
Gostou tanto da ideia, que logo na primeira oportunidade resolveu colocá-la em prática.
Chegou a casa propositadamente tarde e assim que a mulher lhe deu a primeira pancada, ele berrou: “Toma! Toma! Sua galdéria!”. Ao ouvir aquilo, a mulher batia-lhe cada vez mais e ele gritava mais alto ainda.
O processo continuou em escala, até que a mulher perdeu a paciência e atirou-o pela janela, do 13º andar.
Antes de chegar ao chão, ele ainda gritou:
— E agora eu vou-me embora e nunca mais te quero ver à frente!

[© Reescrita: Tiago Coen]

Máscaras e Vernizes

Máscaras e Vernizes

A Palavra Escrita

A Palavra Escrita

Vivo em grande parte do rendimento que o uso da palavra escrita me proporciona, mas confesso que sempre me senti completamente arredado de todas as lógicas que estão associadas aos meios literários e fora de todos os processos editoriais puramente mercantilistas da indústria do livro.

Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxaguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar.
Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso – a palavra foi feita para dizer.

[Graciliano Ramos (1892-1953), romancista, cronista, contista, jornalista brasileiro, numa entrevista concedida em 1948]

Imprefeito

Ninguém é perfeito

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