A Mulher do Lado

La Femme d'à Côté - Poster

Título: A Mulher do Lado
Título original: La Femme d’à Côté
Autor: François Truffaut
Editora: Les Films du Carrosse (1981)

Comentário:
Se houve alguém que dominasse a arte de contar histórias por imagens, de nos fazer acreditar na intensidade das relações no plano do écran e de nos envolver emocionalmente com as personagens de um filme, tudo feito com uma enorme mestria e uma vincada assinatura pessoal, esse alguém é François Truffaut.
Cada uma das suas obras é uma lição de vida essencial, uma aula de escrita obrigatória, um curso de cinema vital. Todas, inter-relacionadas e assentes num processo de trabalho progressivo, evoluíram em íntima relação com a vida dele. Por isso, considero descabida a eleição restritiva de obras maiores na filmografia do fundador da nouvelle vague. Cada pessoa elegerá, a partir dela, o filme que mais lhe agrada ou que mais o impressionou.
Eu poderia escolher uma mão cheia deles, mas o que mais me marcou foi “A Mulher do Lado”. Não é, seguramente, a sua obra mais importante – haverá sempre “Os 400 Golpes”, “Jules e Jim”, “O Último Metro” ou “A Noite Americana” –, mas é um dos que melhor define o seu génio narrativo.
No filme, Madame Jouve relata-nos a tragédia de Mathilde e Bernard, dois antigos amantes que se voltam a encontrar, por um daqueles acasos, anos mais tarde, reacendendo a paixão de outrora, numa altura em que cada um deles tinha a vida resolvida e a gozar uma aparente felicidade. No fundo, é da história da sua própria vida que ela nos fala, cruzando-a com esta, num processo de catarse, mas isso só viremos a perceber mais tarde. Remete-nos, também, para o eterno mito grego das Almas Gémeas, em que cada ser é fatalmente separado em dois à nascença, partindo, então, cada um deles, para uma existência atormentada, até encontrar a sua outra parte. Quando tal acontece, se tal acontecer, não conseguem mais viver separados.
Penúltimo filme na carreira de Truffaut (morre em 1984, com 52 anos), “A Mulher do Lado”, mais do que uma conturbada história de amor, é, na verdade, o retrato de uma relação passional obsessiva e auto-destrutiva. Uma daquelas relações que nos turvam a razão, põem em causa o amor-próprio, e o próprio amor, e parecem não se resolver nunca, mesmo quando um dos amantes parte para o Haiti e o outro para o Alasca! Porque haverá sempre o dia em que, quando menos se espera, o reencontro acontece e logo as emoções se avivam tumultuosamente como se, ao abrir o coração, fosse uma caixa de Pandora que se abrisse!
Fanny Ardant, na figura de Mathilde, está sublime, num filme feito à sua medida, o primeiro dos dois que fez sob a direcção daquele que viria a ser o homem da sua vida. É o género de actriz que, sempre que entra em cena, preenche o écran com a sua presença, ofuscando tudo à sua volta.
Gérard Depardieu, o último dos actores-alter-ego de Truffaut, encarna na perfeição o papel de amante ciumento e desassossegado e tem aqui um dos seus melhores desempenhos enquanto actor.
Com uma contracena deste nível, Truffaut, um mestre na direcção de actores, não teve problemas em explorar até ao limite a intensidade dramática de um argumento engenhosamente enredado que ele próprio escreveu.

Género:
Drama Psicológico, Drama Romântico, Tragédia Passional

Destinatários:
Toda a gente. Aliás, é essa a característica que separa François Truffaut dos seus pares da nouvelle vague, e em particular de Jean-Luc Godard. É também a prova da sua excelência e do seu infindável saber. Considerado por muitos como o homem que mais sabia de cinema, enquanto realizador e crítico, manteve sempre, apesar disso, ou por isso, uma relação estreita de enorme sucesso com o público.

Citação:
“J’écoute uniquement les chansons d’amour. Parce qu’elles disent la vérité. Plus elles sont bêtes, plus elles sont vraies.”, afirma Mathilde Bauchard (Fanny Ardant) num diálogo do filme.



[Página Inicial]

6 Comentários»

  j. escreveu @

Pensava que só os amores aos 20 eram assim.

  Tiago Coen escreveu @

Hehehe!
Este é daquele tipo de maleitas que nos pode atingir em qualquer idade!
Para o bem e para o mal, acompanha-nos até à morte!
E o pior é que ainda ninguém descobriu uma vacina de comprovada eficácia que a possa combater! ;)

  Ana Maria Ribeiro escreveu @

Mas que ideia tão recambolesca, essa das vacinas para os sentimentos., Livra !!!!! O que eu não tinha gostado do filme !!!! :)

  Tiago Coen escreveu @

:)
Nem todos os sentimentos podem andar à solta.
Os que acompanham habitualmente a paixão obsessiva, só os liberta quem confunde ainda o que é amar.

  regina oliveira escreveu @

Pois éeee! e quando este dá-se depois dos 40,na idade do lobo(a) é de perdição. ,D
De Sousa Sílvia.


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