As Entrevistas da Paris Review

Foi recentemente editado um livro que está a preencher deliciosamente todo o meu tempo livre.
Trata-se de uma colecção de 10 entrevistas feitas a outros tantos grandes escritores do séc. XX, realizadas nas décadas de 50 e 60 pela equipa da Paris Review.
Ao longo dos seus 56 anos de existência (o primeiro número tem data da Primavera de 1953), a revolucionária revista norte-americana tornou-se num marco para todos aqueles que, de uma maneira ou de outra, estejam ligados ao meio literário. A grande atracção e maior interesse de cada número residia quase sempre na entrevista feita a um escritor de renome internacional, ao ponto de estes textos terem sido considerados por muito boa gente como trabalhos literários de recorte clássico, por si só.
Completamente absorventes e muitas vezes divertidas, estas entrevistas, feitas por quem está por dentro do universo da arte literária, distinguem-se pelo facto de as perguntas serem muito pouco habituais – incidindo mais no “Como” e menos no “Porquê” usual.
A própria Paris Review já havia lançado no mercado norte-americano, através da editora Picador, uma colecção em 4 volumes com parte das conversas realizadas, mas o interesse particular desta edição é ela ter um filtro e um selo nacionais.
O prestigiado jornalista Carlos Vaz Marques levou a si a tarefa de seleccionar e traduzir os textos originais e ainda prefaciar o livro. A edição, extremamente cuidada, é da responsabilidade da Tinta-da-China e o bom-gosto da capa e das ilustrações devem-se a Vera Tavares.
Eu ainda só li as entrevistas feitas a E.M. Forster, Graham Greene e William Faulkner, mas já me bastam para considerar o livro como um dos lançamentos do ano. Os outros 7 autores entrevistados são Truman Capote, Jorge Luis Borges, Ernest Hemingway, Lawrence Durrell, Boris Pasternak, Saul Bellow e Jack Kerouac.
Absolutamente a não perder!
Sócrates e Portas ou A Hiena e O Abutre

Desenganem-se os que ingenuamente pensam que o namoro de José Sócrates e Paulo Portas é fruto de circunstâncias criadas por acaso.
Há cerca de meio ano, quando ainda não se preparavam as campanhas para a tripla série de eleições, avancei com a convicção de que havia uma aliança estratégica bem urdida entre José Sócrates e Paulo Portas com o fim primeiro de aniquilarem o PPD/PSD e de seguida repartirem a carcaça.
Comprovados mestres nas práticas da necrofagia, ambos viam na frágil condição do adversário uma oportunidade única para usurparem o espaço que em condições normais lhes estaria sempre vedado. A combinação de esforços parecia infalível e os proveitos já eram dados como garantidos. O PS asseguraria a manutenção do poder por longos anos e o CDS poderia assumir-se finalmente como o grande partido da ala conservadora.
O primeiro sufrágio, porém, gelou-lhes o sangue, por uma vez quente, e com isso os movimentos. O segundo acto eleitoral veio confundir mais a estratégia, pois se, à direita, Portas cumpria a sua parte, e se encontrava pronto, de unhas afiadas, para desferir o golpe tão desejado, já Sócrates, com o crescimento inesperado do Bloco de Esquerda, via parcialmente abaladas as suas hipóteses de hegemonia ao ter que dividir a atenção entre um assalto ao centro-direita e a cobertura na ala esquerda.
Ultrapassada esta ameaça depois do desaire do Bloco no terceiro capítulo eleitoral, e confirmado o definhamento do PPD/PSD, a estratégia inicial volta a ganhar forma e só não vê quem não quer o que se adivinha no futuro próximo.
Será coincidência inocente serem precisamente estes os dois únicos líderes partidários a terem sobre eles suspeições de abuso de poder e favorecimento político enquanto detentores de cargos de governação?
Impressões
A primeira impressão que temos de alguém é invariavelmente aquela que subsiste no final, por muitas voltas que as impressões dêem entretanto.
António Sérgio (1950-2009)

Dou-me muito bem com a Morte. Sinto só a dor que causa quando a sombra que a segue apaga alguém que me ilumina.
António Sérgio, o último dos lobos resistentes, foi durante muito tempo o meu farol da margem.
Se agora não ficamos às escuras, é porque teve, ele, outro mérito enorme: o de acender, no seu percurso, milhares de novas outras luzes!
[Notícia do Público, 02.Nov.2009]
[Texto de Miguel Esteves Cardoso, 17.Set.2007]
Visão
Visionário é aquele que consegue ver bem longe, sem perder de vista o que está à frente dos olhos.
Autárquicas 2009

Se nas eleições legislativas, quem saiu claramente vitorioso foi o BE e o CDS e quem saiu derrotado foi o PS e o PSD, apenas duas semanas depois, nas autárquicas, aconteceu precisamente o inverso!
Um regresso à normalidade, portanto, tal qual como a conhecemos das experiências do passado.
Aqueles que haviam visto nos resultados de há 15 dias a consolidação de uma nova representatividade das diferentes forças partidárias no país, porque não entenderam nada do que havia ocorrido, vão ter agora que rever todas as suas conclusões.
Numa outra vertente de interesse, estas eleições revelaram que o nosso povo, ao retirar o poder a algumas figuras sinistras do cenário político (Fátima Felgueiras, Ferreira Torres, Narciso Miranda), não é tão ignorante quanto todos os indicadores indiciam. É lento, muito lento, a reagir, mas acaba sempre por lá chegar. Pena que os povos de Gondomar e de Oeiras se encontrem num nível mais retrógrado de desenvolvimento!…
Nota final para a taxa de abstenção, que persiste em aumentar. O silêncio de todas as forças partidárias sobre o assunto é bem revelador da ameaça que aí pressentem existir, isto porque é cada vez mais evidente que esta inacção popular se trata de uma forma consciente de protesto ao actual status quo político e não um mero alheamento ligeiro e irresponsável. Perante um espectro elegível tão miserável, cada vez mais pessoas deixa de alinhar na fantasia do “votar no menos mau”, pois compreenderam que fazê-lo significa, tão só, sancionar esse mesmo espectro.
Circunstanciamento
A ideia de que somos vítimas das circunstâncias é uma mera aparência.
Somos nós quem circunstancia o que somos!
As Filhas Góticas de Zapatero
Na semana passada uma notícia correu mundo, mas, curiosamente, em Portugal passou quase despercebida.
O motivo de tal buzz teve a ver com a forma “ousada” como as filhas do primeiro-ministro espanhol se apresentaram com os pais no Metropolitan Museum of Art de Nova Iorque durante a recepção oficial oferecida pelo casal Obama aos chefes de estado participantes na 64ª Assembleia Geral da ONU.
Esse facto nada teria de mais, se uma das fotos que habitualmente se tiram pela ocasião não tivesse sido colocada no site oficial do Departamento de Estado americano.
A publicação da foto de imediato levantou uma onda de protestos e levou a que fosse retirada do site ao fim de algumas horas, ao mesmo tempo que era proibida a sua divulgação. Mas era tarde de mais – a imagem já havia corrido mundo e provocado as mais variadas e incompreensíveis reacções.
O casal Zapatero, ao abrigo da lei que salvaguarda a privacidade de menores, sempre proibiu qualquer divulgação pública de imagens das suas filhas (13 e 16 anos). Esse facto pode explicar, em parte, o choque vivido em Espanha por esta apresentação das crianças, desconhecidas até então, mas não justifica, de todo, o teor quase xenófobo da maioria dos comentários.
As reacções de censura só vêm evidenciar que a maioria das pessoas ainda não deu conta que o mundo e os seus modelos de vida mudaram e que esta mudança, no caso oportunamente apadrinhada pelos Obama, veio para ficar.
Que mal vem ao mundo que uma pessoa se apresente vestida desta ou daquela maneira, neste ou naquele lugar, sobretudo quando se trata de uma criança, seja ela filha do cozinheiro da cantina, do reitor da escola ou do ministro da educação? E que diferença faz fazê-lo em estilo gótico ou beto da linha? Não são a Doc Martens e a Tommy Hilfiger apenas marcas, ambas de culto?
É, em tudo, risível esta novela!
Quem não cresceu fantasticamente assombrado pela silhueta de Batman, ou já não terá lido, deliciosamente aterrorizado, um qualquer romance de William Blake, Lord Byron, Friedrich Niezsche ou Edgar Allan Poe? E se tivermos em conta que um dos realizadores mais bem sucedidos e cultivados da actualidade é um gótico convicto – falamos de Tim Burton –, e de que o seu actor fetiche, Johnny Depp, não renega essas mesmas convicções – isto para mencionar só duas ilustres personas dos nossos dias –, não deixa de ser irónica, e mesmo patética, toda esta celeuma. Ainda por cima vindo isto de onde vem – um dos locais mais visitados em todo o mundo é precisamente o Bairro Gótico, em Barcelona, e Gaudi – para muitos, o maior arquitecto espanhol de sempre – o principal revitalizador da arte gótica em Espanha.
Bem, estiveram os pais Zapatero, que lhes concederam o direito de livre afirmação e, ainda melhor, o casal Obama, que não viu nisso qualquer motivo para melindre.
[sobre a cultura gótica]
[ver foto a cores em alta resolução]
(Pre)ocupações
Os que ainda se preocupam com o supérfluo e o acessório, é porque nada têm de essencial ou substancial com que se ocupar!
Legislativas 2009
Por muitas voltas que os líderes partidários se empenhem em dar – e nós sabemos bem as voltas que se dão nestas alturas –, dos resultados das recentes eleições legislativas, há a tirar três conclusões óbvias.
A primeira, que o CDS e o Bloco de Esquerda sairam vencedores e que o PS e o PSD sairam derrotados!
A segunda, que houve um claro empenhamento dos portugueses em tudo fazer para se verem livres destes dois líderes do bloco central – uma tarefa impossível, dado que um teria, infelizmente, que permanecer sempre.
Finalmente, que aqueles que não foram votar, nos quais me incluo, já representam mais votos do que qualquer um dos partidos a eleger. Pode bem ser que um dia, estes votos, que são cada vez mais do contra, ainda levem alguém ao poder!
Desilusões
Não podemos acusar os outros de nos terem desiludido.
A ilusão é um acto da nossa única e inteira responsabilidade!
A Águia Nacional-Fantasista

É de bradar aos céus d’Allah, toda esta euforia bacoca em torno do clube dos 6 milhões de analfabetos funcionais (aqueles cujo presidente diz que “pelo peixe morre a boca”)!
Nem no tempo do império-por-cumprir o vermelho parecia tão en-carna-do (ainda que isto de ser lampião nunca passe da flor da pele)!
Ele é o “este ano é como no tempo do Eusébio”, o “a europa do futebol tem os olhos na Luz”, e até o pacóvio deslumbrado J.J. diz que “este ano, se nos deixarem, vamos ser campeões, bi-campeões e até tri-campeões!”.
Na verdade, com o tratamento de privilégio que está a ser dado ao Benfica e com tanto penalty forjado que já se vê e adivinha, admirará pouco que o velho Pantera Negra ainda venha a ser o Bota de Ouro desta época; não surpreenderá, da mesma forma, que a Europa do futebol se fixe na Luz – que a europa do benfica é a do Chipre, Turquia, Croácia e Macedónia e nestes também os momentos de glória são sempre fixados no canal Memória – e, por fim, ninguém pestanejará quando a Liga lhes atribuir um tri-campeonato já nesta época, pois com a falência do país que se anuncia, bem poderá nem haver campeonato nos tempos mais próximos e a coisa fica já resolvida sem mais escândalo!
Tivessem outros clubes beneficiado de metade desta ribalta, e o Braga teria ficado já o ano passado em terceiro, o Sporting ficaria de novo este ano em segundo, e o F.C. Porto seria sempre desde há 35 anos o campeão!
Manipulações
Este dom que algumas pessoas têm em iludir-nos permanentemente com histórias manipuladas, plenas de fé e esperança, devia levá-las ao cinema ou à literatura e não à gestão de um clube ou ao governo da nação!
Abuso de Poder

Como é que é possível haver uma pessoa que, depois de ter sido privativa e publicamente usada e abusada, anos a fio, ainda suporta o autor de tais sevícias?
Só mesmo alguém muito ignorante e sem pingo de coragem o pode permitir e aceitar.
Há-os, nós sabemos, em todos os tempos! De maneira que – sempre achei – quem assim age, merece tudo o que lhe couber!
Encantamentos
Enquanto as pessoas, dia após dia, continuarem a contemplar o Sol como se fosse este a rolar à volta da Terra, continuarão a ser enroladas, diariamente, sem contemplação!








